terça-feira, 13 de dezembro de 2011

:: A trajetória de um alvinegro

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                                         Embaixadores Thiago Magalhães e Telma Paz

A minha história alvinegra é um pouco diferente das histórias da maioria dos torcedores do clube de Porangabussu. Nasci no Recife e com menos de 6 meses fui morar na capital do Ceará. Com 2 anos retorno ao Recife. Seria uma passagem sem maiores consequências mas deixou marcas indeléveis em mim. E daqui a pouco eu conto o porquê.

Meu pai é torcedor do Clube Náutico Capibaribe e sempre me levava ao estádio quando morávamos na capital de Pernambuco. Cresci torcendo pelo Náutico. Mas a vida sempre provoca mudanças nada exatas.

Com 10 anos vou morar na cidade de Petrolina. Segundo retorno ao Recife. E outra saída após poucos anos: vou morar no Juazeiro do Norte, então com 12 anos, mas com menos de um ano volto ao Recife.

A partir dessa volta começam a me chamar de ‘cearense’ no colégio que vou estudar. Eu respondia dizendo que era pernambucano. Mas não adiantava. Era o colégio todo falando cearense para cá, cearense para lá. Aí relaxei e comecei a assumir a identidade cearense. Perguntavam meu time e eu dizia Náutico. Replicavam: mas tu não és cearense como é que tu torces pelo Náutico? Os colegas já acreditavam que eu tinha nascido no Ceará mesmo. Parei de responder Náutico na escola e comecei a dizer que era torcedor do Ceará Sporting Club.

Em 1992 fui a um ou dois jogos do Icasa no Romeirão. Ano este que o campeonato cearense acabou com o título dividido entre quatro times.

Em 1993 vejo a final do campeonato pernambucano. 1ª final que estou num estádio e o Náutico perde do Santa Cruz numa virada inacreditável. E neste ano o Icasa é vice-campeão cearense.

Eu não acreditei quando Náutico e Ceará caem no mesmo grupo do campeonato brasileiro deste fatídico ano. E o Ceará teve a infelicidade de ser rebaixado num jogo contra o Náutico numa virada e eu estava no estádio acompanhando esse jogo e sofrendo duplamente, pois um dos dois seria rebaixado.

Continuei acompanhando o Ceará à distância porque todos acreditavam que eu era cearense e já tinha incorporado o alvinegro na minha vida. 1994 foi o ano da quase felicidade. Quando o Vozão deu duas pisas no Palmeiras, desclassificou o Internacional, todos nós pensávamos que seria o ano da redenção. No dia 07 de agosto deste ano, eu queria ter me juntado a todos que estavam no Castelão, mas meu pai não me deixou viajar sozinho para esse jogo.

Infelizmente depois do fatídico jogo do Grêmio, voltamos a ser um time regional. Precisávamos voltar com urgência a ser um time nacional. Acompanhando a distância vi o clube ser tetra-campeão. E em 1998 deixo de acompanhar o Icasa, pois as portas do clube se fecharam.

Em 2001 passo um mês na capital do Ceará a trabalho e aproveito para ver pela 1ª vez meu time no seu habitat natural. Fui ao PV ver jogo. Fui a Porangabussu ver um treino, fiquei maravilhado e ao mesmo tempo decepcionado com estrutura de CAP.

Voltei a morar no Juazeiro do Norte em 2002 e pensei que seria sem volta o Recife. Cheguei a tempo de ver o Icasa reabrir as portas onde foi a pior década da história. Só conseguimos o título de 2002 e 2006. E eu pensava: será que o Ceará voltará a ser grande? Quando tinha que ir a capital do Ceará para resolver algum problema do trabalho, aproveitava e via algum jogo no PV, que é ao lado da sede de onde eu trabalhava.

Outra mudança. Aporto na cidade de Salvador em 2004. Saberia da oportunidade de ver o Vozão nos jogos contra o Bahia, mas por enquanto ia me contentando vendo alguns jogos do baiano e da série B na Fonte Nova. Vi o Bahia perder de 2 a 1 para a gente num local com mais de 60 mil torcedores. Infelizmente ficamos na 1ª fase terminando o campeonato em 12º. E o pior estava por vir: vi o Bahia perder aquele jogo contra o Brasiliense por 3 a 2 e graças a esse placar o nosso rival sobe para a série A.

Essa vida errante me levou a Brasília, parafraseando Renato Russo: saindo da rodoviária vi as luzes de Natal. Meu Deus, mas que cidade linda, nesse país lugar melhor não há.

Aí pensei: agora tenho que me acalmar num lugar. Cheguei em 2005 e pude acompanhar o Ceará pela internet. Sofrendo com o Vozão, que termina o campeonato em 11º, e sofrendo com o Náutico no fatídico jogo contra o Grêmio.

Eu via os jogos no Bonzão, ali no Sudoeste. E cheguei a conversar com alguns torcedores alvinegros dizendo que eu torcia pelo Ceará e tinha até camisa. Mas a galera só me via com a torcida do Náutico.

Chegou 2006 e o sofrimento foi maior. Precisávamos ganhar o último jogo para não cairmos para a série C, onde o rival gosta de jogar. Greve de ônibus e mais outros apetrechos levaram o torcedor e ir até de jegue ao Castelão. Ganhamos e aconteceu a manutenção na série B. No ano de 2007 com sofrimento um pouco menor, terminamos de novo em 16º. Em 2008 foi o campeonato de cumprir tabela e terminamos na 12ª colocação. Nesses três anos quando tinha algum jogo Gama x Ceará ou Brasiliense x Ceará eu estava nas arquibancadas com uma ruma de alvinegros.

Comecei a pensar: eu quero os times do Nordeste forte. A mídia sudestina é contra todos nós. Porque não criar um consulado/embaixada do Ceará como existe do Náutico? Fui atrás de contatos, mas era difícil. Todo mundo tentava ver jogo de alguma forma ou de outra, mas todos isolados.

2009 chegou e com ele a esperança de um Ceará forte. Essa força ao longo do campeonato se refletiu nesse meu desejo de juntar todos num só lugar. Fui aos jogos aqui e em Goiânia para tentar essa criação. No dia 9 de novembro daquele ano, mobilizando os alvinegros para ver o possível acesso contra o Atlético-GO, muitos se juntaram e resolvemos criar a hoje chamada Embaixada do Vozão. Foi um passo ousado e precisávamos fazer isso para fazer frente aos clubes do eixo sul-sudeste.

Finalmente chegou o momento de eu rever o Ceará como um clube nacional. De enfrentar os “grandes” de igual para igual. De classificar-se para a copa Sul-americana como foi para a Commebol em 1994.

Mas este ano recebi uma notícia que foi um misto de alegria e tristeza: a volta. Pensei: volta para onde? À cidade natal.

Nessa minha angústia com a volta, achei um texto muito interessante de um blogueiro chamado Guilherme Montana:

“O retorno à cidade natal, depois de alguns anos ausente, sempre tem o efeito de uma madeleine proustiana. Chegando, basta respirar o ar da cidade para que todo esse clichê do novelo de reminiscências se desenrede aos olhos da memória. Sobretudo se esse ar for o de Recife, minha cidade natal. Eu, já tão acostumado, e mesmo enamorado, ao ar seco de Brasília, me senti noutro planeta quando desembarquei no Aeroporto Internacional dos Guararapes. A umidade me entrava narinas adentro, e as reminiscências espocavam coração afora. Viradas no cão. [...]

Mas não é só de diatribes que meu novelo é composto. Passado o choque inicial, algumas horas depois, no táxi a caminho da casa da família, me senti melhor. Além de matar a saudade de seis anos, passei pela Recife de que gosto mais.

Essa Recife é a da História. Se você mora ou tem sua origem em alguma grande metrópole brasileira, talvez nunca tenha parado para pensar no quanto de História há nas ruas pelas quais você anda. Eu não tinha (mas era adolescente e adolescentes não sabem de nada), até vir morar em Brasília e ficar impressionado com o seguinte pensamento: "Poxa, essa rua tem só quarenta anos". Então vi minha cidade natal com outros olhos.

Veja bem. Diariamente eu vinha andando da escola pra casa pela Estrada do Arraial e parava no Sítio da Trindade pra paquerar ou arrumar briga. Foi lá que os holandeses levaram uma surra. Ou então, nos fins de semana, ia ao Recife Antigo com cinco reais no bolso (e eram mais que suficientes), parava pra mijar* na frente da Kahal Zur Israel, e nem sabia que aquela sinagoga foi a primeira das Américas ― e de onde saíram os judeus que seriam os futuros colonos de Manhattan. Ou, quando voltava de algum show de death metal, andando trôpego pela Ponte Buarque de Macedo não me caiu a ficha de que aquela era "a ponte do Augusto dos Anjos", o poeta predileto de todo adolescente de gostos tétricos. Enfim, a Recife da História.
[..]

Os nativos de cidades litorâneas como o Rio, Recife e Fortaleza devem se sentir noutro planeta quando pisam aqui em Brasília. Eu me senti assim quando vim morar aqui quinze anos atrás. A umidade de Recife, a secura de Brasília. A desorganização urbana de lá, o planejamento daqui. O nervosismo do trânsito de lá, a educação daqui. O calor humano de lá, o retraimento daqui. Dois planetas diferentes. Apesar de todas as diferenças físicas entre estas duas cidades, a principal delas, é claro, é a que se vê nos relacionamentos humanos. O brasiliense nato, ou forasteiro já aclimatado à cidade, não é exatamente frio, porque, afinal, somos brasileiros. Mas são, sim, reservados e de uma maneira muito peculiar. Como me disse outra escritora, a Pilar Fazito, o brasiliense se comporta como se estivesse no set d'O Bebê de Rosemary.

O brasiliense é anômico também. Qualquer paulistano ou cearense pode abrir a boca pra se gabar de quatrocentos anos de História. O brasiliense mal tem cinquenta anos pra reclamar um palito de dente. O brasiliense carece de sotaque (pois é, eles não têm, mesmo), de comida típica e de tudo isso que cria identidades regionais. O brasiliense é um alienígena.

Foi assim que sempre me senti em Recife, aliás. Um alienígena. Apesar de tudo, um alienígena. Principalmente pelo clima, ao qual eu jamais me acostumei. [..] Não sei se minha cidade natal é a que havia deixado ou a para a qual retornava.”

Alvinegros amigos de Brasília: saibam que a Embaixada depende de cada um vocês. Se cada qual der o seu quinhão, a nossa associação será perene, eterna, tal qual o Ceará Sporting Club, que dará um salto de modernidade, mas sem se afastar de suas tradições. Neste salto o que eu espero do clube que sou sócio é que olhe com carinho os consulados. Precisamos criar com urgência a diretoria dessas associações ligada diretamente à diretoria executiva.

Poderia encher dez páginas de texto escrevendo sobre cada jogo que vi com a Embaixada ou se vi ao vivo no estádio junto com os embaixadores. O jogo contra o Brasiliense na Copa do Brasil de 2011 onde conseguimos colocar 934 torcedores na arquibancada de visitantes da Boca do Jacaré. O jogo do acesso contra a Ponte Preta. Qualquer jogo contra o Gama. O jogo contra o Atlético-GO de 2009 só é bom lembrar como aquele da mobilização para a criação da Embaixada. O jogo contra o Atlético-GO ano passado que foi 1 a 1 onde temos o vídeo mais visto na história da Embaixada no youtube: É gol, é gol, é gol [...] e a torcida caladinha.

Eu retorno à cidade Maurícia, mas com certeza meu coração ficará na Embaixada do Vozão onde tive muitas alegrias e poucas tristezas.

O que precisarem por lá saibam que podem contar comigo. E tenham certeza, vou criar o Consulado do Vozão no  Recife.

Thiago Magalhães.

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