segunda-feira, 1 de agosto de 2011

:: Dimas: Soldado de mil e uma histórias

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Embaixadores André, Xaxá, Juninho e Leopoldo posam ao lado de Dimas, em março de 2011 (Foto: Zé Wellington)

Matéria de Ana Flávia Gomes - Jornal O Povo (1/8/11)

    Dimas Filgueiras, o soldado alvinegro, completa 40 anos de futebol cearense em 2011. Em entrevista ao O POVO, ele puxa pela memória mil e uma histórias da bola

    Esse carioca cheio de histórias do morro bem que poderia ser conhecido apenas como pupilo de Nilton Santos, Mané Garrincha e até de Madame Satã. Mas, em terras cearenses, Dimas Filgueiras Filho construiu história peculiar. Serve ao Ceará há quase 40 anos. E, antes, o que poucos lembram, também marcou seu nome com a camisa do Fortaleza.

     O andar incerto e o gaguejar para contar os causos são de alguém que carrega todos os pesos de uma fidelidade alvinegra alardeada, criticada e até abalada, mas sempre mantida. Dimas assumiu o comando técnico do Ceará em 39 diferentes épocas. Nisso já se somam quase 500 jogos. E incontáveis xingamentos, atritos e questionamentos sobre a idoneidade da sua relação com o clube.

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                                                 Dimas Filgueiras (Foto: Xaxá)

    Na sede do Ceará, numa vazia sala de descanso dos atletas, Dimas abriu o jogo. Encheu os olhos d’água ao falar da família. Mas a voz embargou mesmo ao lembrar do momento crucial da sua carreira de técnico: o vice na Copa do Brasil de 1994.

    É esse homem que se denomina um “soldado alvinegro”, experiente a ponto de “conviver com sapos”, devotado a Nossa Senhora de Fátima, que desfia coleção de situações que poderiam soar dramáticas. Mas narradas pacatamente. Como aprendizados.

    O POVO - Poucas pessoas conhecem a sua vida antes de futebol, antes de chegar no Ceará. É verdade que você não teve uma infância das mais tranquilas?
    Dimas Filgueiras - Eu nasci no morro de São Carlos. A minha infância foi difícil, como de todos na época. Eu tive a sorte, o dom, de jogar bola. Eu fui bafejado pela sorte porque eu tinha um primo que trabalhava no Banco do Brasil e o diretor do Botafogo, doutor Rivadávia Corrêa, também trabalhava no Banco do Brasil. Aí ele disse que tinha um primo que jogava bola, e ele falou: “Leve lá. Pra ele fazer um teste no Botafogo”. Peguei dois bondes, cheguei lá, e coincidentemente, o treinador era o Marinho (Rodrigues, ex-jogador e técnico), que treinou aqui o Ceará, em 1971. Ele perguntou de que eu jogava, e eu: “Lateral-esquerdo”. E ele: “Joga lá na frente (de atacante)”. Como o treino era de cruzamentos e eu tinha a impulsão boa eu fiz dois gols. Eu era lateral-esquerdo e passei a ser centroavante naquele ano (1958). Mas eu brigava por posição com o Jairzinho, que era mais habilidoso, e aí eu pedi para jogar de lateral-esquerdo. Fiquei como lateral do Botafogo durante muito tempo. Aí fui convocado para as olimpíadas de Roma (em 1960) e fui cortado, fui pras olimpíadas de Tóquio (em 1964), fui tetracampeão juvenil, bicampeão de aspirantes, bicampeão com o profissional e começou a carreira.

    OP – Você chegou a trabalhar para ajudar a família?
    Dimas – Eu trabalhei como babá pra minha tia. Tomava conta dos meus primos. Mas não ganhava nada, porque você sabe que antigamente não se pagava nada... A gente vivia só de casa, comida... Eu fazia todo o trabalho: lavava roupa, limpava a casa, tudo era comigo. Eu tinha 7, 8 anos e tinha que pegar água lá embaixo todo dia, porque lá em cima (no morro) não tinha caixa d’água. Aí eu subia com lata d’água na cabeça de 20 quilos e fui engrossando as pernas. Menino, subindo 200 degraus, três, quatro vezes por dia... Aí eu criei uma base forte para o futebol.

    OP – Até que ponto a sua proximidade com o Garrincha facilitou a vida para você no Botafogo?
    Dimas – No juvenil do Botafogo eu era tido como neto do Nilton Santos, porque tinha as características dele. A pedido do Marinho eu fui aos coletivos. Fui uma vez, fui a segunda... Na terceira vez, o Nilton Santos veio me chamar a atenção porque eu tinha dado uma pancada no Mané. Pô, o Mané já passava com uma facilidade grande, se eu não marcasse... (risos) Eles me diziam: “Cuidado pra não machucar o Mané”. E teve uma viagem pela Europa e o Mané, que tinha dificuldade para escrever, me viu escrevendo umas cartas. Ele falou: “Dá pra escrever umas cartas pra mim?” Eu falei: “Dá. É só você me falar o nome da pessoa e explicar mais ou menos o que quer que eu diga”. Aí eu bolava as cartas e fazia pra ele. A partir daí, em toda viagem ele já falava pro treinador: “Você vai levar o Dimas”. Pra você ter uma ideia, eu já levava as cartas feitas (risos). Em toda viagem que ele estava, eu estava encaixado. Ele exigia: “Você não vai deixar de levar o Dimas, não. O Dimas joga nas quatro posições ali atrás. Não tem medo...”. E, realmente, em qualquer posição eu jogava.

     OP – Nessa convivência com ele você deve ter presenciado muita...
    Dimas – Não (apressa-se em interromper). Ele era pessoa... Sabe uma pessoa matuta? Ele era daquele jeito. Eu esclarecia muita coisa pra ele. Às vezes ele estava machucado e era obrigado a entrar. Eu falava pra ele: “Torto, não entra não. Você vai pro banco, diz que vai jogar mas não joga”. Ele dizia: “É mesmo, né, Mosca?” Ele me chamava de Mosca de Boi, porque eu era muito chato. E essa convivência foi tão boa! Tanto que ele foi pro Corinthians (1966) e eu era lateral do Botafogo. Aí, no primeiro jogo Corinthians e Botafogo, ele falou: “E agora, Mosca?” Eu falei: “Pode ficar tranquilo, que o que eu tiver que tomar é na bola”. Ele disse: “Faça o teu que eu já tô deixando o futebol e você tá começando”. Ele era tão amigo...

    OP – Nesse seu início de carreira você conviveu com um personagem folclórico do Rio de Janeiro que é o Madame Satã. Ele era uma pessoa ligada ao futebol?
    Dimas – Não. Ele era ligado a mim. De futebol ele não entendia nada. Quando eu morava no morro, na rua Afonso Cavalcanti, 158, o baixo meretrício do Rio de Janeiro era a uma quadra de onde eu morava. E tinha um campo chamado Canadá. E, naquela convivência, como eu jogava pelo Canadá, ele foi se afeiçoando a mim. Então, eu jogando, ninguém podia bater em mim, nem nada, ele não deixava. Era um negão de dois metros de altura. Ele me tinha como um filho, né? Me respeitava e eu respeitava ele. Mas ninguém podia nem gritar comigo dentro de campo que ele já ficava com raiva.

    OP - Então vocês eram amigos? De um frequentar a casa do outro?
    Dimas - Amigos, mas ele não tinha casa certa. Era de passar, conversar, trocar ideia. Ainda mais eu que era um cara tido como ídolo.

(1970) - Ze Carlos, Dimas e Pedro Basilio

    OP – Você saiu do Botafogo e para atuar pelo Fortaleza. Você esperava ficar tanto tempo no futebol cearense?
    Dimas – Eu vim pra passar três meses (risos). Eu estava tentando ganhar meu passe na Justiça porque eu ia pra São Paulo. A Portuguesa estava me querendo lá. Aí, conversando com o Castilho (ex-goleiro de Fluminense e seleção), que era técnico do Fortaleza, ele me disse: “Dimas, antes de você ir, passe três meses em Fortaleza comigo”. Aí eu vim passar três meses e estou até agora. E não me arrependo. Acho que lugar bom é lugar onde você ganha dinheiro. Eu cheguei em setembro de 71 e fiquei.

     OP – Como foi a transição do Fortaleza para o Ceará?
    Dimas – Qual o jornal de vocês? (pergunta, com jeito capcioso)

    OP – Tem a ver com o Seu Costa? (José Raymundo Costa, ex-vice-presidente do O POVO e ex-diretor Fortaleza, já falecido)
    Dimas - O que aconteceu é que eu ofereci pra eles (Fortaleza), na renovação do meu contrato, as luvas em dez meses. Estava quase tudo certo. Mas depois as pessoas que orientavam o presidente do Fortaleza disseram que ele podia fazer um contrato unilateral, que eu não tinha direito a receber isso. Só que eles achavam que estavam lidando com uma pessoa que não era esclarecida... E falaram: “Ou você assina o contrato ou vai ter uma punição”. Eu falei: “Não, eu não assino”. Mas faltavam dois meses para terminar o contrato, terminava em novembro de 72. Aí apertaram o Castilho pra ver se ele me tirava do time e o Castilho disse que enquanto ele fosse treinador eu ia jogar. Só que o Ceará me dava 10 vezes o que eu estava pedindo na época, porque estava disputando a primeira divisão (do Brasileiro). E eu era tido como ídolo no Fortaleza... Aí, dia 1º de novembro terminou o contrato, no dia 2 eu assinei com o Ceará.

1972 d1

    OP - Teve alguma restrição no Ceará por você ter jogado no Fortaleza?
    Dimas - Eu acho até que as pessoas que faziam o Ceará na época tiveram muita visão. E deveriam ficar agradecidos ao Fortaleza, por eu ter vindo para o futebol cearense. Aqui eu já vou completar 40 anos e sou conhecido como guerreiro porque nas horas que o clube mais precisa eu estou a postos.

    OP – Você não cansa de ser essa pessoa que vai e volta no Ceará?
    Dimas – Não. Neste ano mesmo eu tive proposta pra sair. Eu sempre digo pra todo mundo que eu considero o Ceará como um filho mais velho. Na hora que o filho mais velho precisa da pessoa do pai, o pai vai lá. E eu faço isso com a maior boa vontade. O sofrimento é grande. Sabe por quê? Porque um treinador de fora vem, perde duas, três, vai embora e pronto. Eu tenho aqui meus filhos, meus netos, meus amigos que sofrem também se o time não vai bem. Graças a Deus, dessa vez, eu saí por cima, porque nesses 40 anos que eu vou completar no Ceará, eu nunca, nunca, (enfatiza, emocionado) e olhe que eu ganhei muitos títulos aqui dentro do Ceará, eu nunca tive o reconhecimento da torcida como eu tenho agora.

    OP – Você atravessou várias gerações no Ceará. Em algum momento se sentiu sem ambiente?
    Dimas – Eu tenho dito aqui pra todo mundo que engolir o sapo é fácil, o difícil é conviver com o sapo. Eu acho que você tem que saber o momento certo pra tomar as atitudes. E, pela experiência que eu tive e tenho, eu normalmente escolho o momento certo. Agora, tem certas coisas que dói. Dói, né? Tem hora que você é relegado a terceiro, segundo plano e sabe que pode ajudar. Mas as coisas passam. E a gente passa por cima porque sabe que o melhor é o Ceará, não sou eu. Se, por acaso, for bom pro Ceará, é bom pra mim. Por isso que eu sempre digo: eu sou um guerreiro à disposição.

    OP – Você quer nominar esses sapos?
    Dimas – Não, eu vou mexer numa coisa muito antiga e não fica bem. Eu acho que essa oportunidade que você me deu de fazer uma entrevista dessa me envaidece por demais. Isso, a mim e a todos os meus. E eu acho que mágoa é coisa ruim e falar de coisa ruim não é bom.

    OP – Como treinador você virou um administrador de crises. Como você se transformou nessa pessoa pronta para aguentar a barra?
    Dimas – Experiência não se compra, se adquire. Eu tenho mais facilidade, pela convivência, pelas experiências que eu tive aqui. Eu sei transformar momentos ruins em momentos bons. Eu sei que depende muito do grupo, depende da diretoria, do apoio da torcida.

    OP – Uma curiosidade dos seus quase 40 anos de Ceará é que você viu Ronaldo prestes a explodir no São Cristóvão. Existia alguma possibilidade naquela época que você foi ao São Cristóvão, de o Ceará atravessar o caminho do Cruzeiro e você trazer o Ronaldo?
    Dimas – Na época quem era dono do passe dele era o Jairzinho. E Jairzinho comandava tudo no São Cri-Cri. E eu tinha ido lá atrás de jogadores pro Ceará. E quando eu vi o Ronaldo treinar, eu tava do lado do lado do Jairzinho, eu falei: “Jairzinho, quem é esse centroavante?”. “Esse centroavante já está vendido pro Cruzeiro”. Depois de vendido pro Cruzeiro, eu ia falar mais uma coisa pro Jajá? Não!

    OP - Mas haveria essa possibilidade se você estivesse nesse treino seis meses antes.
    Dimas – Aí sim. Mas também ele não era esse jogador todo.

     OP – E esse seu lado de fé se alimenta como?
    Dimas – Eu nasci em 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima. Então vem daí. A primeira procissão (comunhão), minha mãe me levou pra fazer. E a gente tem que se amparar em alguma coisa para que você aumente a confiança no que você vai fazer. Eu sou uma pessoa que todo dia 13 eu vou à missa. Eu tenho em casa praticamente um altar, com umas 50 (imagens de) Nossa Senhora de Fátima. Tem o ditado que diz que a fé remove montanhas, né? A fé te dá condição de você suportar muita coisa.

    OP – No seu episódio de câncer, como você fez para superar?
    Dimas – Quando eu soube que tinha isso (câncer de próstata, há 10 anos), eu botava o Ceará acima de tudo. Eu marquei a minha operação assim: o Ceará jogava fora, eu fui com o Ceará, eu tinha que chegar à noite e já me hospedar (internar). Eu cheguei 3 horas da manhã, acho que de Juazeiro, e fui direto pro São Carlos me internar e operar de manhã. Eu era o treinador! Fui lá tomar conta do time, voltei e fui direto pro hospital; não fui nem em casa. Até um negócio perigoso eu deixei de lado.

    OP – Ou seja, o Ceará acabou até certo ponto te ajudando.
    Dimas – Sim. Se eu não tivesse o Ceará para me preocupar talvez eu encucasse mais. Mas eu achava que ia superar. E, graças ao meu bom Deus, eu superei.

    OP - E a família? A gente lembra que em 2008 você deixou o cargo de técnico porque a família estava pressionando, como é essa convivência.
    Dimas – (Olhos marejados) A família conta muito, porque sofre muito. Nos que já vivemos há muito tempo no futebol já está com a carcaça preparada, mas você ir você ir para o colégio e verem falar mal do seu pai, aí é complicado. Mas eles conseguiram assimilar, graças a Deus.

    OP – Nesse ir e vir no comando interino do Ceará, de todas as transições que você fez, qual foi o momento mais doloroso?
    Dimas – O momento para eu mais me chatear foi naquela derrota na Copa do Brasil (1 x 0 para o Grêmio, na final de 1994). Logo depois eu entreguei porque eu senti demais. Ali foi uma coisa... Faltavam três, quatro minutos quando ... (olhos marejam) Aí eu resolvi: vou largar essa posição de treinador porque eu sofro demais. Aquilo ali foi um assalto, né? Foi uma coisa Nordeste contra Sudeste. E nisso a gente não vai ganhar nunca, né? (Dimas cita o lance em que o atacante Sérgio Alves é derrubado na área gremista. Se o pênalti fosse marcado e o jogo terminasse em 1 x 1 o Vovô levantaria a taça).

    OP – Pra encerrar, o soldado bateu em retirada ou vai voltar?
    Dimas – Soldado, dentro do quartel, não rejeita nada. Se o Ceará precisar, tenho que estar à disposição, porque sou um soldado. Não sou capitão nem major. E aonde chamam, um soldado tem que ir.

    DIMAS BIOGRAFADO
    A história que Dimas construiu virou livro. A biografia “Dimas: O Guerreiro Alvinegro” e é quinta obra do pesquisador Alberto Damasceno - a data de lançamento está indefinida. A relação dos dois é longa. E pode-se dizer que Damasceno teve papel importante na ida de Dimas para Porangabuçu. O então jogador estava para renovar com o Fortaleza e recebeu proposta do Ceará em programa de televisão que tinha a participação de Alberto. “Eu fui o melhor do jogo e convidado para o programa lá no Canal 2”. Diretores do Vovô estavam no programa e a proposta para a transferência começou a ser formulada.

    NÚMEROS

   39
    VEZES
    Filgueiras comandou o Vovô em 39 oportunidades, desde 1982

    42
    PAÍSES
    Dimas diz ter conhecido 42 países em excursões com o Botafogo e seleção olímpica

    PERFIL
    Dimas Filgueiras Filho nasceu em 13 de maio de 1944, no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro-RJ. Tem quatro filhos: Ney, Danielle, Lia e Vânia. É casado com Vânia Maria Chaves Filgueiras, sua segunda esposa. É filho de Berta Domingues Filgueiras e Dimas Filgueiras. Tem uma única irmã, Maria Lúcia. Jogou por Botafogo, Fortaleza e Ceará.

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